Um pouco da síndrome da apnéia.

Um pouco da síndrome da apnéia.
Categoria blog
2015-07-27 11:51:46

Um assunto dentro da otorrinolaringologia que vem aumentando sua importância tanto entre os especialistas quanto entre o público leigo é a síndrome da apneia obstrutiva do sono. 

Muitos de nós, há algum tempo, estávamos acostumados a ver parentes ou amigos que ao dormirem, roncavam e eram motivos de brincadeiras. Com o avançar da medicina, fomos notando que tal problema não se tratava somente de uma situação irônica...

Os roncos são sons ruidosos gerados pela vibração dos tecidos da faringe posterior. Em si, não são problemas de saúde e sim sociais, causando desagrado a quem dorme ao lado do roncador. Para nós médicos, indica-nos que há apenas certo grau de obstrução das vias aéreas superiores. Acontece que virtualmente quase todas as pessoas que apresentam a dita síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAHOS) roncam, portanto é um de seus sinais.  É importante que se esclareça, no entanto, que nem todos os roncadores apresentam SAHOS.

Como o próprio nome desse mal sugere, os eventos respiratórios, a apneia e a hipopneia, são parte importante dessa síndrome. Esses nomes complicados são o jargão médico utilizado para parada respiratória (apneia) ou sua quase parada (hipopneia).  Ocorrem devido à obstrução total das vias aéreas ou subtotal. Costumo perguntar aos meus pacientes que padecem da referida condição, qual seria então a conseqüência desses eventos? Eles costumam responder que se parassem de respirar, morreriam. Pergunto então o que eles estariam fazendo na minha frente já que deveriam estar mortos? Eles riem e ficam sem resposta. O que realmente acontece com a parada respiratória é a falta de trocas gasosas (oxigênio e gás carbônico), a consequente queda da oxigenação do sangue e liberação de radicais livres (produtos da desoxigenação que são deletérios à saúde) e, ao contrário da morte concluída pelos pacientes, um despertar ou uma superficialização do sono, que na maioria das vezes não é notada de forma direta por quem está dormindo, mas de forma indireta com sonolência diurna ou cansaço excessivo, já que o sono não é reparador. Aos que estão ao lado, as paradas respiratórias podem ser bastante assustadoras e em geral referem como se o paciente estivesse engasgando.

A título de ilustração, já tive oportunidade de atender algumas pessoas com mais de 70 eventos respiratórios por hora durante o sono, ou seja, mais de uma apneia/hiponeia por minuto, sendo que em alguns casos, podem durar mais de 60 segundos! Se multiplicarmos pelo tempo de registro do exame que foi de aproximadamente 7 horas, chegamos ao impressionante resultado de mais ou menos 500 paradas respiratórias e em torno do mesmo número de despertares.

Logicamente, o sono desses pacientes não é de qualidade, ou como dizemos não repara ou não recupera após um dia de atividades, gerando uma sonolência diurna significativa e cansaço com disse anates: o indivíduo dorme rapidamente ao assistir televisão, ao começar uma leitura, na sala de espera de um consultório ou ao dirigir, o que ai já ocasiona risco a terceiros, principalmente quando nos referimos aos motoristas profissionais, que guiam coletivos ou veículos de grande porte.

Um sono não reparador, além disso, causa em crianças, hiperatividade, déficit de atenção, baixo rendimento escolar, etc. Em adultos, baixo rendimento no trabalho, depressão, alterações do humor, dentre outros.

Ênfase particular deve ser dada às freqüentes desoxigenações que liberam radicais livres, tão comentados nos dias atuais. Inúmeros são os danos desses elementos químicos: envelhecimento precoce, oxidação das gorduras e uma maior tendência de deposição nos vasos e aterosclerose com seus resultados adversos e uma variada gama de outros efeitos. Recentemente, estudos indicam dificuldade de controle da hipertensão arterial, uma prevalência maior de diabetes, aumento da incidência de infarto agudo do miocárdio, obesidade e outros problemas. 

O diagnóstico da síndrome da apneia e hipopneia obstrutiva do sono é feito,  inicialmente com uma boa história e um exame físico detalhado, procurando anormalidades do esqueleto facial, aumento da circunferência do pescoço, alterações otorrinolaringológicas como desvio de septo, aumento exagerado dos cornetos nasais, das amídalas e adenóides (que ocorre principalmente em crianças), dentre outras. A confirmação da síndrome é feita através da polissonografia, que é realizada numa clínica especializada em medicina do sono, durante o período noturno, para simulação do sono fisiológico. Faz-se uma monitorização de vários parâmetros, como os movimentos respiratórios, oxigenação, ritmo cardíaco, estágio do sono, intensidade do ronco, posição do corpo ao dormir. Após o registro e o diagnóstico, a síndrome é graduada em leve, moderada e severa e a partir dai traçamos as condutas terapêuticas de acordo com a gravidade.

O tratamento pode ser cirúrgico ou conservador e como sempre é individualizado a cada caso. Nas crianças costuma ser cirúrgico e tem no aumento das amídalas e adenóides sua principal causa e a retirada dessas estruturas, seu principal tratamento. Quanto maior a idade ou o risco cirúrgico, maior também é nossa tendência em tratar o indivíduo de forma não cirúrgica.

O tratamento não cirúrgico considerado padrão é o uso do aparelho de CPAP, sigla vinda do inglês que significa continuous positive air pressure. O equipamento administra uma pressão positiva pré-determinada às vias aéreas o que evita seu colabamento.

Existem várias cirurgias com proposta curativa, mas eventualmente são também realizadas para permitir uma melhor adaptação do paciente ao aparelho de CPAP.

De forma então conclusiva, a síndrome da apneia e hipopneia obstrutiva do sono é uma condição complexa, que leva a um comprometimento importante da qualidade de vida, bem como predispõe a eventos de saúde futuros sérios. Tem tratamento eficaz e essa terapia deve como sempre ser individualizada a cada paciente.

 

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